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Cidália e Patrícia

O meu nome é Patrícia, tenho trinta e um anos e sou cuidadora profissional. Há quatro anos que tomo conta da dona Cidália.

Embora seja técnica de farmácia, quando vim para Portugal arranjei trabalho a cuidar de uma doente de cancro, já lá vão oito anos. Foi graças às recomendações daquela senhora que eu passei a cuidar da dona Cidália. Desde então vou a casa dela todos os dias, de segunda a sexta.

A situação da dona Cidália e a minha são muito parecidas. Estamos as duas sozinhas. Ela não tem família, e a minha está longe, na Bolívia e no Brasil. Partilhamos um sentimento de profunda solidão. Por isso nos entendemos, por isso nos damos tão bem.

A história da dona Cidália é incrível. Aos oitenta e nove anos, ela tem melhor memória do que eu. Pianista e violinista desde menina, toda a vida foi uma mulher muito culta. Filha única, perdeu o pai aos treze anos. Como ela costuma dizer, é filha única, sobrinha única e neta única. Todos os parentes que tinha eram mais velhos do que ela e foram falecendo. Não teve filhos. Quando morreu o marido, o Alfredo, com quem esteve casada sessenta e seis anos, a dona Cidália ficou completamente sozinha.

No hospital, quando o marido já estava muito mal, uma doutora ia lá vê-la todos os dias. Para falar com ela, para se certificar de que estava bem, porque sabia que a dona Cidália não tinha mais ninguém e preocupava-se imenso com isso.

Quando voltou para casa, a dona Cidália sentiu-se sozinha e sem forças. Decidiu então perguntar a um vizinho se conhecia alguém de confiança. E foi assim que eu comecei a trabalhar para ela.

Graças a uma trabalhadora social que deu seguimento ao caso e se interessou pela situação, a Associação de Amigos da Terceira Idade disponibilizou os serviços de uma voluntária. A dona Rosa vem uma vez à semana só para lhe dar apoio emocional. A verdade é que a dona Cidália tem um dom para atrair boas pessoas, porque ela também é uma ótima pessoa.

A dona Cidália diz que agora tem amigas. E uma nova família.

Eu sempre lhe digo que não pode morrer, que não me pode deixar sem trabalho, e rimo-nos à gargalhada. Às vezes brinco com ela, digo-lhe que está a precisar de um copinho e preparo-lhe um café. Com cafeína e tudo! Volta e meia também lhe faço um panachê com cerveja sem álcool, e quando não anda com o açúcar alto dou-lhe um bolinho.

Ultimamente a dona Cidália ouve mal e está a ficar cega. Já não pode ir para a rua sozinha. Por isso, de manhã fazemos as voltinhas juntas. Vamos ao banco, ao cabeleireiro. Mas também fazemos excursões, vamos almoçar fora e andamos às compras no centro comercial. Há pouco quis comprar "uma tablete", que é como ela chama aos tablets. Agora fazemos montes de selfies e depois vemo-los no ecrã. Também lhe mostro fotografias das cidades que ela visitou quando era nova. Viajamos juntas através das suas lembranças.

Todas as semanas meço-lhe a tensão, verifico os níveis de açúcar e ausculto-lhe o coração. Sou a enfermeira da dona Cidália, mas acima de tudo sou amiga dela. Gosto muito de me sentar a ouvir as histórias que ela conta. Vejam bem, ela nasceu em Lisboa em 1927, numa casa pombalina, rodeada de músicos e de artistas... A quantidade de histórias que ela pode contar!

A trabalhadora social também liga uma vez por mês, para se interessar pela dona Cidália, para saber se ela está bem acompanhada. Há muitas pessoas idosas sozinhas, o que é muito triste.

Quando me vou embora deixo-lhe comida preparada. Às vezes faço-lhe pipocas para ela ver um filme da parte da tarde e depois fazer-me um resumo. Aos fins de semana telefono-lhe para saber se ela está bem e lembrar-lhe que tome os medicamentos. Preocupo-me com ela. Tenho uma amiga que diz que eu não me devia afeiçoar tanto à dona Cidália, que vou acabar por sofrer. Mas eu não ligo, embora saiba que por vezes deveria tomar certa distância emocional pelo meu próprio bem.

Eu tenho lutado muito para poder exercer como farmacêutica. Finalmente, depois de dez anos, consegui um trabalho aos fins de semana e sei que poderia trabalhar mais horas, de segunda a sexta, mas... eu ia lá deixar de cuidar da dona Cidália? Agora formo parte da vida dela, e ela também forma parte da minha.